quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Vale a pena Ler de novo

A troca
Osvaldo Orico

"Foi justamente à mesma hora, já tarde da noite, que as primeiras dores do parto levaram as duas mulheres a procurar a maternidade local para dar à luz. Encontraram-se na portaria, acompanhadas dos maridos, e cumprimentaram-se como boas amigas, confidenciando uma à outra:— Creio que a criança não demora a nascer. Pulei da cama assustada, porque me deu a impressão de que saía de um momento a outro. Senti uns pontapés e umas pontadas, como se quisesse escorregar de qualquer jeito.— Eu também. Não me agüentava mais. O meu não demora muito a chegarPor felicidade ou infelicidade de ambas, só havia duas camas vagas no hospital. Todos os quartos da clínica estavam ocupados; mas não era o caso de discutir alojamentos. E as duas amigas concordaram em ficar perto uma da outra, na mesma enfermaria: Eulália, branca, vinte e seis anos, bonita, cabelos castanhos ondulados, casada com Juvenal, de pele clara e cabelos louros, simpático, insinuante; e Eufrásia, alta, esguia, morena (dessas que se costuma chamar bem-apanhadas), com uma pigmentação que não deixava de torná-la atraente e apetecível, casada com um mulato de boa aparência, o Adelino, bem-dotado fisicamente, capaz de competir num torneio de homens de cor com o Harry Bellafonte ou Breno Melo. Nos bons tempos de Carmem Jones e Orfeu Negro.A enfermeira de plantão, Dona Nair, não poderia ser mais diligente e responsável. Agasalhou-as da melhor maneira, aconselhando-as com sua longa experiência:— Deitem-se aqui. Vou prevenir o médico e pôr em ordem a sala de operações. Desconfio muito que, antes da madrugada, as crianças vão nascer.Tinha razão. Duas ou três horas depois, quase ao mesmo tempo, Eulália, a parturiente branca, de cabelos castanhos e lisos, tinha a seu lado um bebê de chocolate. Um bebê que contrastava com a brancura do ventre de onde tinha saído; e Eufrásia, a morena tostada (de duvidosa herança capilar), aconchegava ao seio uma criança clara, que não fazia pendant com a pele da barriga em que havia sido gerada.Os pais entreolharam-se surpresos, aceitando constrangidos, a contragosto, o capricho da natureza, que se esmerara em dotá-los de maneira tão desigual e desencontrada. Até mesmo perversa. Como era possível escorrer de um ventre macio e alvo uma criança esconsa e escura? Que dava o que pensar. E — o que é pior — o que falar.E de uma pele morena, quase canela, fazer brotar um lírio, um bogari?O assunto era para intrigar.Os dois homens coçaram a cabeça: que diriam os visitantes, os vizinhos e os conhecidos, quando Eulália e Eufrásia mostrassem as crianças que a cegonha lhes havia trazido? Os pais tinham razão para estar apreensivos. Aquilo ia dar bode. E servir de piada, de facécia e de chacota para as linguarudas da vizinhança."...

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