quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Os novos donos da terra

Portal EXAME

Por: Angela Pimenta, de Correntina

Revista EXAME Em setembro, enquanto as chuvas da primavera anunciavam o plantio de grãos no Brasil, em Wall Street o furacão da crise subprime já impunha uma colheita de prejuízos colossais aos investidores. Mas a turbulência global não foi capaz de frustrar uma das maiores transações de venda de terra no país nos últimos tempos. Após seis meses de negociação, proprietários do município baiano de Jaborandi venderam, por 40 milhões de dólares, seis fazendas que somam quase 15 000 hectares - o equivalente ao dobro da área da Grande São Paulo. No lado comprador, despontam dois grupos de investidores com participação majoritária de capital externo. Um deles é a Calyx Agro Brasil, sociedade formada em maio pelo Louis Dreyfus, grupo francês do ramo de commodities agrícolas, e pela seguradora americana AIG - que, ironicamente, seria resgatada da falência pelo governo Bush em outubro. Por 28 milhões de dólares, a Calyx levou cerca de 11 000 hectares no sudoeste baiano. O segundo grupo comprador é a Sollus Capital, empresa que une o fundo de investimento PCP, pertencente a ex-sócios do banco Pactual, o grupo Los Grobo, maior produtor de soja na Argentina, e o fundo de investimento americano Touradji. Por 12 milhões de dólares, a Sollus adquiriu uma gleba de 4 000 hectares. Situada perto da divisa da Bahia com Goiás, no topo úmido e plano de uma chapada, a terra, que dispensa irrigação artificial, é propícia ao cultivo de grãos. "Não estamos preocupados com a crise, pois nosso investimento é de longo prazo", diz o paulista Harald Brunckhorst, diretor de operações da Calyx. "Vamos lucrar com o aumento da produtividade aprimorando o solo e as técnicas de plantio."

Colheita mais farta Nas mãos dos novos donos, as terras baianas, antes pouco produtivas ou improdutivas, começam a passar por uma transformação - e ingressam num novo ciclo de geração de riqueza e empregos, que dificilmente conseguiriam alcançar com os antigos proprietários. No caso da fazenda Santana, adquirida há pouco mais de um ano pela Calyx em Correntina, município vizinho a Jaborandi, a primeira safra de soja colhida já apresentou produtividade 29% superior à que os donos anteriores obtinham (veja quadro ao lado). A próxima meta é superar a média brasileira. A presença da Calyx e da Sollus nessa parte da Bahia representa bem mais que a simples chegada de forasteiros a uma região. Embora adotem modelos de negócios distintos - enquanto a Sollus compra terras para arrendá-las a terceiros, a Calyx compra para produzir -, os dois grupos têm o mesmo objetivo no longo prazo: elevar a competitividade do agronegócio e, por extensão, valorizar a terra em novas fronteiras agrícolas, como o sudoeste baiano e a chamada região do Mapito, que engloba parte do Maranhão, do Piauí e de Tocantins. "Estamos levando a lógica de portfólio para o campo, diversificando nossas terras em termos de localização geográfica e de produtos agrícolas", diz Felipe Whitaker, gerente de relações com investidores da Sollus. "Além disso, só alugamos a terra para quem sabe cultivá-la, como é o caso dos nossos sócios do grupo Los Grobo e da Calyx, para quem vamos arrendar a área de Jaborandi." De certa forma, ao apostar em ferramentas de gestão já consolidadas no ambiente empresarial urbano, tanto a Calyx como a Sollus visam transformar plantações de soja, milho e algodão numa espécie de linha de montagem rural. Isso significa adotar procedimentos ainda pouco usuais no campo, como a segmentação por equipes para tarefas de plantio, colheita e manutenção de máquinas e a implantação de uma política de remuneração com base na meritocracia. Apesar de ser líder mundial em produção agrícola, o Brasil conta com poucas empresas que trabalham dessa forma. Uma exceção é a gaúcha SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de algodão e soja do país, com faturamento anual da ordem de 300 milhões de reais, e também dona de terras no oeste baiano. No caso da SLC, as práticas de gestão têm base em seu histórico - durante 54 anos, até 1999, o grupo do qual faz parte atuou no setor industrial produzindo tratores. "Essa vinda de novas empresas não nos preocupa. É natural que o desenvolvimento do campo brasileiro atraia investidores", diz Arlindo Moura, presidente da SLC Agrícola. "Temos de nos preocupar é com os competidores argentinos, no caso da soja, e com os australianos, líderes em algodão. Quem souber trabalhar vai continuar a crescer." Outra vantagem dos grandes grupos é sua capacidade - no momento prejudicada pela crise internacional - de captar financiamentos a juros mais baixos, o que permite planejar no longo prazo e obter ganhos de escala. Tal acesso, que está fora do alcance dos antigos donos da terra em Correntina e Jaborandi, faz a diferença. "Fica difícil competir com as grandes empresas porque, além da flutuação brusca do câmbio e dos juros altos, temos dificuldades burocráticas, como a compra de fertilizantes, que deve ser feita com seis meses de antecedência", diz o americano Dean Alexander, ex-proprietário da fazenda Novo México, uma das glebas de Jaborandi que foram vendidas à Calyx em setembro. Em 2000, ao comprar a terra ainda virgem, Alexander precisou de um time de 100 homens para desbravar o cerrado ao longo de seis meses.

Elas foram às compras Num futuro próximo, a Novo México deve passar pelo mesmo processo de transformação que já produz resultados na fazenda Santana, uma área de 8 800 hectares comprada pela Calyx de um fazendeiro paulista, em agosto de 2007, por 25 milhões de dólares. Situada nas margens da rodovia BR-020, que liga Goiás ao litoral baiano, a fazenda, que antes dedicava 10% da área à lavoura de soja, agora recebe investimentos de 30 milhões de dólares. A obra mais vistosa é um silo com capacidade de estocagem de 1 milhão de sacas, que deve ficar pronto em meados de 2009. O movimento de máquinas também é frenético nos 6 500 hectares já disponíveis para o plantio de soja. Cada hectare recebe investimento de 1 500 dólares, gastos em calcário, que corrige a acidez do solo, fertilizantes e sementes. No final de novembro, quando EXAME visitou a Santana, mesmo debaixo da chuva fina que caía havia um mês na região, cerca de 50 homens, todos terceirizados, trabalhavam a terra usando tratores fornecidos por seis microempresas. "Não vamos ter descanso até cumprir a meta da área plantada", diz Márcio Herkert, paranaense criado em Mato Grosso que foi contratado pela Calyx para administrar a fazenda. Se por um lado a Calyx não economiza em investimentos produtivos, por outro não investe um centavo em luxos comuns em fazendas brasileiras, como as casas com piscina. A Santana só tem casas para o gerente e o contador, e um dormitório para o pessoal terceirizado. Sempre que visita a fazenda, o diretor da Calyx, Harald Brunckhorst, um agrônomo neto de alemães, dorme num hotelzinho de beira de estrada no povoado de Rosário, na fronteira com Goiás. Daqui a dois ou três anos, quando - espera-se - o mercado de ações se recuperar, a Calyx e a Sollus planejam abrir o capital na bolsa de valores. Quanto à estratégia de crescimento, diante da incerteza do cenário econômico - o preço das commodities agrícolas já caiu cerca de 40% ao longo do ano -, após as últimas compras as duas empresas decidiram fazer uma pausa. Devem voltar a campo para tentar arrematar boas glebas a preços mais baixos no final da próxima colheita, a partir de abril de 2009. Por enquanto, as vendas de terras estão paradas no país. "Como a próxima safra deve ter baixa rentabilidade, é possível que produtores em dívida com bancos privados sejam forçados a vender terras a grupos maiores com capacidade de captação externa de recursos", diz Jacqueline Bierhals, analista da consultoria Agra FNP. "Certamente não vamos desprezar boas oportunidades, mas, como devemos padrões de governança aos nossos investidores, só compramos terras que tenham situação fundiária e ambiental regularizada", diz Flávio Inoue, presidente da Sollus. Além de, possivelmente, trazer oportunidades de novas barganhas, a crise está ajudando as duas empresas, majoritariamente de capital estrangeiro, em outra frente: a ameaça de restrições legais xenófobas. Recentemente, o governo resolveu engavetar um projeto de lei que, alegando defender a soberania nacional, limitava a venda de terras a estrangeiros. Diante da turbulência na economia, para não afugentar os investidores internacionais, a idéia foi suspensa por tempo indeterminado. "Ainda bem que o governo esqueceu essa história", diz a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura. "Da nossa parte, os investidores estrangeiros são bem-vindos, porque pagam impostos e ajudam a formalizar o agronegócio."

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